Quero uma vida mais simples. Mas o que é isso?

Tudo começou com a seguinte frase no Facebook:

“Sou o tipo de cara que fala para a esposa que queria uma vida mais simples dois dias depois de comprar uma moto maior. Parabéns, champs.”

Em seguida vieram os amigos comentando que isso é ilusão, que uma vida afastada da cidade tem mosquitos, é longe do supermercado e que o legal da vida é ter uma TV de 60”. Tudo o que consegui pensar foi “gente, não! Uma vida mais simples não significa se mudar para longe da civilização!”

Rapaz feliz com a moto nova. :)

Rapaz feliz com a moto nova. 🙂


E veio a pergunta que este texto tenta responder. O que eu entendo por uma vida mais simples?

Porque esse é o tipo de coisa óbvia, lugar comum, todo mundo sabe o que é uma vida mais simples. Será? Você consegue explicar o seu ideal de simplicidade para alguém?

Antes de mais nada, vamos começar por alguns pontos:

  • Falar em “vida simples” só é possível depois de satisfeitas todas as necessidades básicas humanas. Ou seja, saneamento básico, alimentação adequada, abrigo e saúde física e mental. Fora disso, não é simplicidade, é pobreza.
  • A busca pela simplicidade só faz sentido quando este conceito faz parte do seu ideal de felicidade. Senão, nada deste texto funcionará para você.
  • Não existe uma medida única de simplicidade. Uma vida luxuosa para um pode ser considerada simples para outro. Isso depende da sua renda, cultura e situação social.

Com a dificuldade em definir o que é uma vida simples, vamos tentar o oposto. Simples é o oposto de “complicada” ou de “luxuosa”?

Lembro-me de um texto sobre como a classe média-alta paulistana se mata de trabalhar para manter um padrão de vida quase incompatível com sua renda. Acumula babás, carro extra para o rodízio, casa na praia, móveis de luxo e roupas assinadas por designers, mas não tem tempo de usufruir tudo isso. Precisa trabalhar mais para manter toda essa estrutura, se tornando escrava deste padrão de vida, muitas vezes aguentando empregos desgastantes apenas pelos bons salários.

Aí está uma definição do contrário do que seria uma vida simples.

Certo, então colocamos o consumismo exacerbado como o vilão da história. Mais ou menos, se você reparar bem a questão não está no consumo, mas o quanto você tem poder para consumir e quanto tempo você quer se dedicar a isso.

Essa definição de tempo é importante, porque ter uma TV gigante de 60” pode custar 5 minutos de trabalho de uma pessoa mais rica, e dois meses de trabalho de outra. Transformar tudo em tempo pode confundir, mas é a única medida universal. Todo mundo tem só 24 horas por dia e 7 dias por semana aqui neste planetinha azul.

E se você está dedicando semanas, ou até meses da sua vida somente para ter uma coisa, pode ser que haja algo errado. E aí talvez esteja o verdadeiro oposto da simplicidade.

Faremos um outro parênteses aqui. Ter um carro pode significar ganhar duas horas a mais no seu dia, que poderão ser dedicadas a outras atividades. Mas trocar para um carro bem maior não. Ao mesmo tempo, ter um carrinho velho significa perder horas e paciência com mecânicos. Ter um utilitário enorme pode significar algumas voltas a mais no quarteirão encontrando vaga para estacionar. Tudo isso para dizer que não existe uma medida única para as coisas, e é muito difícil achar o meio termo em cada uma delas, principalmente porque isso varia para cada um. (Lembra que a definição de simplicidade tem medidas diferentes?)

Então voltamos à questão do “ter”. Ter coisas é útil e necessário à vida, à economia e à sociedade. Ninguém quer voltar ao tempo das cavernas! O problema é quando ter deixa de ser algo prazeroso e passa a ser uma obsessão, um apego exagerado aos bens materiais. Isso chama-se “materialismo” e tem tudo a ver com esta história de vida simples.

Okei, chega de parênteses e vamos tentar definir o que é uma vida mais simples.

Um lugar comum do conceito é você tentar fazer tudo por conta própria: a faxina da sua casa, suas roupas na máquina de costura, plantar e colher seu próprio alimento, criar galinhas no quintal e qualquer outro estereótipo de “vida simples” que você possa imaginar. Mas sabemos que o nosso tempo é limitado, então para que eu vou perder oito horas por dia plantando batata, se eu posso trabalhar 20 minutos na minha profissão e comprar no mercado?

Esposa e eu compramos um notebook novo, cheio dos paranauê. Não ficou barato, mas além do tempo que economizamos ao não ter que esperar dez minutos para ligar, a energia mental que gastávamos tentando fazê-lo “funcionar” estava terrível. O mesmo vale quando às vezes tentamos arrumar demais uma coisa que realmente não tem conserto, isso nos toma tempo e desgasta. Muitas vezes é mais simples comprar novo.

A menos que uma dessas atividades citadas lhe dê prazer, mas essa é outra história. Tempo e energia são coisas diferentes, mas este artigo já está complicado o bastante, por isso vamos ficar só com o tempo mesmo.

Então uma das definições possíveis de uma vida mais simples fica quase um tratado econômico:

Viver de maneira simples é trabalhar o menos possível nas coisas que você não gosta, evitando o materialismo, assim buscando cada vez mais tempo para fazer as coisas que gosta.

Desapontado? Entendo, também fiquei ao chegar nesta conclusão. Foi quando percebi que está faltando uma parte importante da questão: nós não vivemos em terceira pessoa.

Não basta ficar na parte funcional de cada coisa. Aliás, esse foi um dos grandes erros do socialismo, pasteurizar todos os bens de consumo, numa tentativa de eliminar o desejo. Mas o desejo é um dos motores do mundo. É uma das coisas que nos faz se levantar de manhã.

Essa história começou com uma moto nova. Consigo argumentar que comprei uma Teneré para um conforto maior ao viajar, para conseguir pegar estrada de terra, para isso ou para aquilo. Só que, querendo ou não, a anterior cumpria com 99% do que eu precisava. Comprei porque eu queria. Sempre vai ter algo mais caro com aquele 1% a mais.

E se essa moto atende a todas as minhas necessidades, porque eu fico pensando que um dia eu terei uma Transalp? Ou por que não desgrudei os olhos ao ver uma Triumph Explorer passando na rua?

Desejar faz parte da vida. A pessoa sem ambição nenhuma costuma estacionar, somos feitos para caminhar sempre adiante. Como equilibrar tudo isso? Foi então que isto clicou na minha mente:

Uma vida simples é um estado mental.

Uma vida simples é um estado mental de gratidão. De ser feliz com o que você tem.

Quando você é grato pelo que tem, a ansiedade em ter mais, buscar coisas maiores e mais caras, diminui muito. Uma vez que você não está de olho sempre na próxima compra, é possível estabelecer uma relação mais saudável com seu dinheiro.

Pode significar uma mudança de vida, se desfazer de alguns objetos, se mudar, talvez não. Mas está ligado a se apegar menos às coisas, porque ter muitas delas gera um custo financeiro e emocional de mantê-las. Uma vez que vão embora você se sente mais leve.

Eu ainda quero aquela Transalp. Mas não agora, nem no ano que vem. Talvez um dia, quem sabe. Eu tenho uma bela moto, que me traz muito prazer em pilotá-la.

“É muito fácil dizer isso quando você tem uma moto maior que 90% das que você encontra nas ruas.” Sim, eu sei. Mas esse é o ponto, é olhar para baixo e ver como você é privilegiado em vez de olhar para cima e tentar ganhar mais e mais.

Estrelinha simprona. Só precisa de um cantinho para dormir gostoso para ser feliz!

Estrelinha simprona. Só precisa de um cantinho para dormir gostoso para ser feliz.

Me desculpe, eu não tenho a receita.

Talvez você tenha buscado aqui uma receita para uma vida mais simples. É o que eu procurava quando comecei a pensar neste artigo, até chegar à conclusão de que isso está longe de ser um conceito fácil.

Todo este artigo é um exercício para organizar as várias ideias que circulavam em minha mente, naquela perguntinha que ninguém sabe responder de verdade: “O que você quer da vida?”

Então, para resumir, se você pulou todo o texto veio direto ao final, uma vida mais simples não tem nada a ver com ir plantar mandioca no interior do Ceará. Significa, talvez:

  • Usar o seu dinheiro para ter mais tempo para fazer as coisas que gosta. O contrário de deixar de fazer as coisas que gosta para ter mais dinheiro.
  • Menos materialismo, menos apego às coisas.
  • Ser feliz e grato com o que você tem, e assim controlar a vontade de querer ter mais.

Este é, pelo menos, o meu caminho. Qual é o seu?

Ficaram de fora deste texto várias questões sobre vida simples, como outras formas de ambição e crescimento não ligadas a bens materiais; o medo e o consumo; a simplicidade nos relacionamentos; a grama do vizinho; o gerenciamento da sua energia em vez do tempo. Tópicos complexos o bastante que dariam um post exclusivo cada um.

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3 Comments

  1. Caramba, li um texto enorme e nem veio com receita…

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  2. Se não fosse a ambição, acho que hoje eu seria o porteiro mais culto do mundo hahahahahaha pouco antes de me formar eu pensei em largar tudo e virar porteiro noturno, ficar lendo e escrevendo o tempo todo no trabalho.

    Aí veio o filho, e além da ambição tive a ação instintiva de buscar empregos melhores para oferecer coisas melhores para a prole.

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    • Rodrigo

       /  24 de março de 2014

      Então, ambição é importante por isso, para não estacionar. Mas existem outras formas de ambição além da econômica, como você querer crescer em espiritualidade, cultura, experiências.

      Não coloquei neste post por dois motivos:
      – O texto já estava ficando meio denso, e só este elemento ia criar um post dentro de outro.
      – Eu não sou evoluído o suficiente para pensar em outros tipos de ambição, então ficaria muito de “faça o que eu digo, não o que faço”. 🙂

      Mas pra gente que é ralé, ambição econômica é uma coisa boa. 😀

      Responder

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