Testemunhas de café da manhã

Esse post começa com um ótimo texto de Ruth de Aquino, colunista da revista Época. Um trechinho:

Há os depoimentos compungidos de amigos ou parentes que revelam estar falidos, sozinhos ou doentes, quase implorando uma atenção. Há uma turma cada vez maior que publica fotos de filhos, cachorros, gatos e netos para uma legião de gente que não está nem aí. Há quem aceite qualquer “amigo” em nome de uma popularidade fictícia. Há os que correm para o Facebook no minuto seguinte de levar um “pé na bunda” para mudar o status de relacionamento – e se declarar disponível. Há os militantes religiosos, políticos e esportivos, sempre torcendo para seu deus, seu partido e seu time. Há, como sempre, os malas invasivos, para quem você mesmo abriu as portas de sua linha do tempo, de sua página e até de sua casa. (Mais aqui.)

Desde que as redes estão por aí, as pessoas estão ali compartilhando. Postando o que comem no café da manhã, o que estão lendo, com o que sonham. É natural para as gerações mais novas.

Parece que o que a galera realmente quer é uma testemunha para as suas vidas, ou mesmo uma legião delas, prontas para clicar em um “like”, um número a mais para nosso incrível placar virtual.

Hubei May June 2011

Tenho medo de ficarmos assim. Olhando posts no Instagram,
vivendo a vida dos outros em vez da nossa.

Casamento não é uma coisa fácil de entender. Para que se dar ao trabalho de viver com alguém, de se alinhar, de abrir mão de tanta coisa? Estamos ainda dentro do mesmo território, nós, humanos, temos a necessidade de que alguém nos seja testemunha, que outros acompanhem nossa vida, o que fazemos.

Como diz o ditado, “quando casamos, escolhemos alguém para ser testemunha de nossas vidas”. Alguém com quem você compartilhará segredos, histórias, momentos felizes, tristes, sonhos públicos, mas principalmente, os sonhos secretos, que não queremos revelar nem a nós mesmos. Alguém que com o tempo saberá muito mais sobre você do que você admite a si mesmo.

O tipo de coisa que geralmente se compartilha no Facebook é o tipo de coisa que se compartilha no casamento. Ideias, vídeos, textos, sonhos, e um belo café da manhã. Acontece que tem muita gente mais preocupada em compartilhar nas redes, em caçar likes como vagalumes, em busca de suas luzes instantâneas e efêmeras.

Nada disso é um problema. O problema é quando você está mais lá do que cá, quando na obsessão pelo virtual, está deslizando o dedo pela tela em vez de aproveitar o jantar com um vinho com sua esposa.

Ou quando qualquer um que assine seu perfil no Facebook o conhece melhor do que a pessoa ao seu lado.

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