Sendo a rocha no relacionamento

Alone together

Eram quase oito da noite, terminávamos de nos arrumar para uma festa. Eu, já quase pronto, sentei no Sofá para esperá-la, e liguei a TV. Algo na tela me lembrou de uma ideia que eu havia visto durante o dia, um serviço de locação de DVDs que eu estava pensando em assinar e comentei.

Ela apareceu na sala, colocando os brincos, e perguntou: “Mais uma coisa para assinar? Mas a gente já não assina muita coisa, muito dinheiro… Eu não entendo, a gente não ganha tão mal assim, e o fim do mês está sempre apertado!” Fiz uma cara de “fazer o quê”, mas ela continuou. “Estou falando sério, não sei para onde vai o dinheiro, não sei nem se a gente vai conseguir para o aluguel no mês que vem, imagina se quisermos comprar um apartamento, como é que a gente vai pagar as contas?”

Respondi provavelmente uma das coisas mais erradas que eu podia ter escolhido. “Olha, eu tive um dia péssimo no trabalho, estou cansado, a gente já vai sair e eu não quero falar sobre isso agora”. Ela se virou e foi para o quarto, respondendo “a gente só conversa quando você quer”.

Você pode imaginar a minha cara de “que foi que eu fiz?”. Sim, era verdade, o dia havia sido péssimo, daqueles que você respira fundo quando sai da empresa. Sim, a gente ia sair em 15 minutos, tudo o que eu queria era chegar no bar e pedir uma bebida. Mas nada disso justifica. Respondi errado por dois motivos.

Primeiro, eu não estava ouvindo direito.  Segundo, que nessa hora, ela não estava procurando uma resposta, ela estava procurando um apoio. Ela estava procurando a rocha.

Isso aconteceu há um tempo, e só agora eu entendi conceitualmente qual era o problema naquela situação, quando vi este excelente artigo do Art of Manliness, chamado “Being The Rock”, que recomendo a leitura.

Relacionamentos são instáveis. A vida é instável, e nesse vai e volta constante, você precisa de um apoio sólido. No mar de insegurança que ela estava atravessando naquele momento, ela não queria uma solução, ela não queria matemática, planilhas ou projeções. Ela só precisava que eu fosse a rocha.

Columbus (OH) Zoo

Ser a rocha não é fácil, significa jogar uma pá de incertezas próprias para dentro da gaveta para que você possa ser o apoio que os outros precisam. Nessa hora, você respira fundo e diz que tudo vai ficar bem.

Levantei-me do sofá e fui até o quarto, sentei-me ao lado dela na cama, e a deixei falar. Sem dizer nada, sem responder, sem argumentos ou defesas, apenas permitindo que ela desabafasse toda a sua insegurança, o que por si só já a deixou mais calma e segura. Às vezes as pessoas só precisam falar um pouco para organizar seus pensamentos.

Pela própria expressão, é de se imaginar que ser a rocha seja papel do homem no relacionamento. Mas é de ambos, é saber estar lá em um momento de fraqueza do outro. Lembro-me de várias crises de insegurança que passei durante a época da faculdade, quando ela estava ali, ouvindo, me acalmando, e sendo o apoio que eu precisava.

Existem situações simples e situações mais complicadas. É sendo a rocha nas situações simples que você prova o seu valor para quando os grandes problemas chegarem, quando ela ou sua família precisará realmente de você para ser seu porto seguro.

As fotos que ilustram este post são de Ben Raynal e quiroso.

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18 Comments

  1. Excelente post cara, se as pessoas se apoiassem mais, não apenas no relacionamento, mas para com as pessoas à sua volta também, com certeza viveríamos num mundo melhor.

    😉

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    • Rodrigo

       /  28 de fevereiro de 2012

      Com certeza, não tinha pensado por esse lado, na minha cabeça estava só no relacionamento dentro da família.

      Mas acho que a gente pode sim expandir isso para vários outros círculos na nossa vida.

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  2. Art of Manliness… Como eu queria um site desses no Brasil, aqui só tem Papo de Homem, que é fraquinho, não educa homem algum…

    Quando você falou de ser a rocha me veio imediatamente a frase do Bruce Lee, de ser água, se adaptar a situação.

    ~~~~~~~~~~~~~~ Eu tinha escrito uma tese super confusa nesse comentário, explicando como essas duas metáforas se complementam, mas apaguei tudo e deixei só isso mesmo hahahahahaha ~~~~~~~~~~~~

    Abraço!

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    • Rodrigo

       /  28 de fevereiro de 2012

      Hahahaha, também sou mestre em escrever teses super confusas em comentários.

      Sou leitor fiel lá do Art of Manliness, e queria conhecer mais da vida do Bruce Lee, só conheço a parte superficial que todo mundo conhece.

      Boa citação!

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  3. Rubens Gualdieri

     /  28 de fevereiro de 2012

    Escrevi no meu compartilhamento, mas repito aqui: mulher, na enormemente maioria das vezes, não quer uma solução ou ideia mirabolante (vindo dos homens, geralmente idiota), ela só quer falar, pois falando ela está externando a sua aflição. No que muitos (zilhões) homens são péssimos. Nós (eu incluso) temos a mania de achar que tudo o que uma mulher diz é um problema que precisa de solução, quando na realidade, ela só está pensando em voz alta. Aplica-se escutar mais (ser rocha) e falar menos (ser papagaio). Valeu brow!

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    • Rodrigo

       /  28 de fevereiro de 2012

      Opa, valeu pela presença por aqui!

      É uma lição muito importante, que sempre eu tenho que reaprender. Como é difícil para nós, homens, parar para ouvir.

      Soluções idiotas, eu faço isso. Quase sempre. :p

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  4. Que texto lindo!!! Acho que foi um dos melhores que já vi por aqui. E é incrível como principalmente os homens costumam ter dificuldade de entender isso, que de vez em quando nós mulheres só queremos que o outro faça aquele gesto que demonstre estar do seu lado. É bem isso mesmo que você escreveu.

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    • Rodrigo

       /  28 de fevereiro de 2012

      Olha só, a primeira opinião feminina no post!

      Muito obrigado pelo comentário, Ligia, fico honrado, embora eu ache que ainda estou realmente muito longe de entender de verdade o que isso significa para as mulheres. Ou entendê-las.

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  5. Muito bom. Faz pensar!

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    • Rodrigo

       /  28 de fevereiro de 2012

      Obrigado pelo comentário, Leandro.
      Se tiver um tempo, leia o artigo original linkado do Art of Manliness, é este assunto muito mais desenvolvido, vale muito a pena.

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  6. Paulino Junior

     /  28 de fevereiro de 2012

    Cheguei até aqui pelo FB da Carol Freddi. Nossa, seu post foi escrito para mim, rsss. Parabéns.

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  7. Vou ganhar quanto por trazer 2 comentários pro blog (lendo e junior) + alguns shares que rolou? :PPP

    adorei o texto.escrevi o comentário e apaguei também haha sorry!

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    • Rodrigo

       /  29 de fevereiro de 2012

      Vcs, viu… Pode escrever comentário longo e confuso, eu deixo.

      Depois a gente negocia um post patrocinado de cupcakes, hehe.

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  8. Bruna Ferrari Faganello

     /  4 de março de 2012

    Muito bom o texto! Explicou de forma clara e singular esse sentimento que às vezes está dentro de nós e não conseguimos expor, o medo.

    Abraços
    Bruna

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  9. Sonia

     /  2 de abril de 2012

    É o tal do ombro amigo

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  10. Amei o post. É exatamente esse o problema. A frase que vc diz que usou no inicio (tipo: “não estou com cabeça para falar sobre isso agora”) é, realmente, a última coisa que queremos ouvir e é o que mais ouvimos. Mas, o que nós queremos (como vc bem falou) não é uma solução perfeita, a reposta para todos os nossos problemas. Não!!! Nós queremos falar! Desabafar… Compartilhar com o nosso companheiro de vida as nossas preocupações. É isso. Estou compartilhando o post. Muito bom.

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  11. Karla Souto

     /  17 de janeiro de 2014

    Minha nossa… estou tão feliz de ler esse texto e tudo nesse site =)
    Ontem eu e meu esposo fizemos 7 anos e 7 meses juntos, ao todo…. Somos recém casados, casamos 04 de Maio 2013… Me identifiquei muito com esse texto, uma situação mt parecida que já passamos, a vida a dois não é fácil, é um grande desafio, mais se você se entrega de verdade é incrível como tudo fica mais fácil… Parabéns pelo lindo texto!

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